Tensões na formação da diversidade

Aqui vamos refletir sobre as tensões que podem ser geradas entre os novos e os velhos habitantes de uma localidade na composição da diversidade. Mas não pretendemos fazer uma análise histórica da questão no Brasil, pois essa já é trabalhada pelo professor de História.


A ideia é promover uma reflexão a respeito de alguns conceitos importantes para aprofundar o tema da diversidade, como aculturação e assimilação. Tais noções são fundamentais na análise das tensões decorrentes da formação da diversidade, pois a inserção de novos atores na realidade social nem sempre se dá de forma tranquila.


Todos os grupos que aqui vieram sofreram preconceito, mas nenhum grupo sofreu tanto quanto o dos negros. Para compreender os conceitos de aculturação e assimilação, enfatizamos que alguns temas relacionados à adaptação daqueles que migraram, como a religião, a língua, a alimentação, os costumes e outros mais estão diretamente relacionados com a formação da diversidade. Vamos explorar aqui as tensões que podem se desenvolver a partir disso.


Os conceitos de aculturação, assimilação e apropriação


O termo “aculturação” foi criado em 1880 por um antropólogo chamado J. W. Powell para designar as transformações dos modos de vida e pensamento dos imigrantes em contato com a sociedade estadunidense.


A aculturação não significa “deculturação” simplesmente. Pois o “a” no início da palavra não pressupõe “falta de” ou “privação”, como ocorre com outras palavras. Por exemplo: amorfo, sem forma, ou amoral, que significa alguém que não tem moral. Não é esse o caso da palavra aculturação. O “a” no início da palavra vem etimologicamente do latim ad, que indica um movimento de aproximação. Com o passar do tempo, a palavra se transformou em conceito para explicar o contato entre diferentes povos. E a partir de então o termo ganha outra significação:
A aculturação é o conjunto de fenômenos que resultam de um contato contínuo e direto entre grupos de indivíduos de culturas diferentes e que provocam mudanças nos modelos (patterns) culturais iniciais de um ou dos dois grupos.


A aculturação, portanto:

Não é necessariamente sinônimo de mudança cultural;

Não é apenas difusão de traços culturais;

Não pode ser confundida com assimilação.


A ideia de aculturação não é necessariamente sinônimo de mudança cultural. Salientamos que toda cultura muda. Não há cultura que permaneça estática, que não se transforme, pois a cultura é um eterno processo. A mudança cultural é parte de toda cultura. Entretanto, algumas mudam mais rápido, outras mais devagar. Veja, por exemplo, os muitos grupos indígenas que, segundo o senso comum, dão a impressão de não mudar. Mas isso ocorre, nós é que não os conhecemos direito. As culturas mudam não só devido a causas externas, isto é, elas não mudam apenas pelo contato com outras culturas, mas também devido a fatores internos à própria cultura.


E se a aculturação vem do contato com outros povos, confundi-la com mudança cultural é deixar de lado uma parte da mudança cultural que é a transformação por fatores internos à própria cultura. Portanto, a aculturação não é somente a difusão de traços culturais. Pois ela é um processo maior e mais complexo do que tal difusão, que pode ocorrer sem que povos entrem em contato direto entre si (por exemplo, por meio de livros, revistas, filmes etc.).


A aculturação pressupõe justamente o contato direto de pessoas de diferentes grupos. A aculturação não pode ser confundida com assimilação. Povos aculturados não são necessariamente assimilados, pois nem todo processo de aculturação resulta na assimilação total de um grupo por outro:


[…] não se pode confundir aculturação e “assimilação”. A assimilação deve ser compreendida como a última fase da aculturação, fase aliás raramente atingida. Ela implica o desaparecimento total da cultura de origem de um grupo e na interiorização completa da cultura do grupo dominante.

De fato, a assimilação seria a última etapa de todo o processo de aculturação devido ao contato de dois grupos, pois implica o fim da cultura de um dos grupos, uma vez que a cultura do segundo grupo é totalmente assimilada pelo primeiro. Ora, a assimilação total de um grupo por outro é algo muito difícil de ocorrer. E, assim, a aculturação, na grande maioria das vezes, não provoca o fim de uma das culturas.


Na verdade, em geral, ambos os grupos se modificam. É verdade que as modificações costumam ser maiores em um grupo do que no outro. Os novos costumes, ou características, são sempre internalizados de acordo com a sua lógica interna. Apesar das modificações, a lógica interna permanece com frequência. Com isso, mantém-se a forma de raciocinar do grupo. Compreende-se, portanto, as razões que levam um grupo de jovens a usar calça jeans: por conta dos processos de aculturação e assimilação.


Observe que o uso de roupas ocidentais por grande parte da humanidade não faz que os grupos deixem de pensar como sempre pensaram. A incorporação do jeans e da camiseta como quase um uniforme por todos os jovens não os leva a pensar da mesma forma ou a deixar de apresentar seus valores de acordo com a cultura em que estão inseridos. Isso, porém, não significa que não sejam influenciados pelos valores de outra cultura.


É verdade também que, às vezes, as mudanças são tão intensas que um dos grupos pode realmente acabar. De qualquer forma, é sempre bom destacar que praticamente não há cultura que não se modifique pelo contato com outra. O que significa que o processo de aculturação quase sempre se dá dos dois lados. É por isso também que há autores que criticam a ideia de aculturação porque ela parece não dar conta de que o processo é recíproco, mesmo que raras vezes seja simétrico. Normalmente é um processo assimétrico. Uma cultura quase sempre se transforma mais do que a outra, visto que elas não estão em pé de igualdade.

A Era Vargas pode ser um exemplo. Os estrangeiros aqui residentes foram proibidos de falar suas línguas de origem, seus jornais foram fechados e muitos locais tiveram que mudar seus nomes. Durante esse período, os estrangeiros que aqui viviam foram forçados a passar por um processo de assimilação da cultura brasileira. Por quê? É o caso de mostrar que isso ocorreu mais intensamente com os alemães e japoneses, pois o Brasil estava em guerra com esses países.


O contrário também ocorreu no processo de colonização pela qual passou o Brasil. Os índios foram domesticados a falar a língua portuguesa, a adotar a religião europeia e o modo de vida europeu. Os indígenas sofreram um processo de assimilação da cultura europeia de forma que o Brasil, embora, preserve ou se reinvente culturalmente, possui uma língua europeia, uma religião hegemônica europeia e uma mentalidade europeia, pois a maioria dos autores estudados nas escolas é oriunda da Europa.


ATIVIDADE 3

Elementos de apoio para as atividades:

“Branco pode usar turbante?”
“Jovem com câncer rebate: ‘Uso o que quero’”

Vídeo de apoio:


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