LIBERDADE

A liberdade constitui tema que sempre transpassou o ser no decorrer da história, tese que continua influenciando a construção da identidade do sujeito e sua relação com a sociedade pós-moderna. O discurso de liberdade e a necessidade de conceituá-la sempre esteve em voga na Filosofia. Os diversos conceitos do termo liberdade exercem função ímpar enquanto instrumento de construção da identidade ética, política e ontológica do indivíduo antigo, medieval, moderno e pós-moderno.

Aristóteles, Hegel e Sartre foram grandes pensadores que analisaram a variável liberdade para além de sua acepção etimológica (sentido da palavra), tanto no plano teórico quanto pragmático, estendendo seu conceito para os domínios da ética, política e ontologia, campos que fortemente influenciam a definição do sujeito como indivíduo na sua historicidade. Embora haja uma grande amplitude temporal (antiguidade, modernidade e pós-modernidade) e espacial (perspectiva grega, alemã e francesa), as obras de Aristóteles e de Hegel e a principal obra de Sartre possibilita uma analogia da evolução, não linear, do conceito de liberdade no espaço-tempo, permitindo definir quais dessas dimensões (política, ontologia e ética) alcançaram primazia e se destacaram nos grandes períodos históricos e considerando as grandes matrizes geográficas que influenciaram a filosofia ocidental.

Em Aristóteles, o conceito de liberdade e o seu locus se encontram na interdependência entre a ética e a política, saberes indissociáveis no pensamento antigo. É no exercício da razão, pelo hábito, buscando a ética teleológica, que o indivíduo, um ser racional e político por natureza, encontra a maior virtude, o supremo bem, que a política pode proporcionar: a felicidade, residência fixa da liberdade.

Para Hegel, a liberdade está na política, no Estado, sociedade política consubstanciada como a síntese da dialética, visto que o Estado se configura como a melhor manifestação do Espírito absoluto, entidade essencialmente ontológica. A própria concepção de ética, no pensamento hegeliano, só encontra realização plena no Estado, materialização, por excelência, do Espírito (Geist) e consciência da razão do seu em si.

J.P. Sartre, por sua vez, ao defender a máxima heideggeriana da precedência da existência sobre a essência (A EXISTÊNCIA PRECEDE A ESSÊNCIA), descartando uma essência em nome de uma condição humana, aponta para uma liberdade que independe da política ou de qualquer determinismo externo. Nesse consenso, a liberdade é uma questão de escolha do ser, questão ética, mas que depende da ontológica, ou seja, da tomada de consciência de si pelo indivíduo e da assunção de sua condição humana.

DETERMINISMO: se refere a uma relação de causa e efeito que condiciona as possibilidades daquilo que existe. Tudo o que há estaria submetido à hierarquia entre aquilo que é determinante (causa) sobre tudo aquilo que é determinado (efeito). Dessa forma seria uma corrente de pensamento que parte da ideia de que tudo o que existe está pré-definido ou está determinado a acontecer. É nesse sentido que, para as teorias deterministas, tudo existe em função de uma causa que o antecede. Pessoas, coisas, eventos ou ações, por exemplo, são o resultado de uma ação anterior, assumindo uma linearidade. Nessa linha de raciocínio tudo estaria DETERMINADO, não havendo maneiras de escapar à série dos acontecimentos, que podem estar determinada pelo passado, presente ou futuro.

TIPOS DE DETERMINISMO

  • Determinismo cultural – os indivíduos que compartilham de uma mesma estrutura cultural tendem a pensar e agir da mesma forma, fundamentados nos valores comuns que os orientam.
  • Determinismo social – as estruturas sociais são determinantes para a ação dos indivíduos. Assim, as condições sociais dos indivíduos são determinantes para o seu modo de vida.
  • Determinismo científico – para essa corrente de pensamento, a ciência vai determinar a forma de vida dos indivíduos, só o que é reconhecido pela ciência pode ser tomado como verdade e torna-se fundamento para as escolhas e as ações.
  • Determinismo geográfico – os habitantes que dividem um mesmo espaço físico passam a comportar-se de forma semelhante, sendo determinados pelo meio em que vivem.

VOLTE AO POST DE SÓFOCLES E RELEMBRE O MITO DO ÉDIPO REI PARA ENTENDER MELHOR O DETERMINISMO !!!!!!!

LIBERTARISMO: também chamado de libertarianismo opõe-se ao determinismo por criticarem a existência de um agente externo que possa reduzir as escolhas dos indivíduos. Nessa corrente de pensamento, os indivíduos são plenamente livres e só devem ser determinados pela sua própria vontade. O termo foi utilizado por correntes anarquistas do século XIX, como em Proudhon, para defender a negação do poder do Estado sobre a vida das pessoas. Mais tarde, no século XX, correntes do liberalismo político assumiram o termo para fundamentar a ideia do Estado mínimo, como visto no pensamento de Von Mises.

DIALÉTICA: é uma forma de discurso entre duas ou mais pessoas que possuem diferentes pontos de vista sobre um mesmo assunto, mas que pretendem estabelecer a verdade através de argumentos fundamentados e não simplesmente vencer um debate ou persuadir o opositor. Embora o ato em si seja fundamental na formação da filosofia, o termo foi popularizado apenas com os diálogos socráticos de Platão.

Sócrates praticava a dialética nas Ágoras (praças) da Grécia Antiga e encontrou na Verdade o maior valor, propondo que a verdade poderia ser descoberta através da razão e lógica em uma discussão (diálogo de contradições que levaria à maiêutica). Este método de Sócrates se opõe à retórica (forma de arte que visa agradar os ouvintes e também a oratória, que convence por vias emocionais, não requerendo lógica ou prova). Pois o método dialético se baseia em resolver os desacordos através de discussões racionais, e, em ultima análise, a busca pela verdade. A forma herdada de Sócrates para proceder tal discussão é mostrar que uma dada hipótese leva a contradições, então, forçar a retirada da hipótese como candidato a verdade. Desta forma, teríamos de encontrar outro candidato a verdade, para verificar se este também estaria comprometido com uma contradição, de tal forma que pudesse ser eliminado. Aquele candidato a verdade que por todos os meios não pudesse ser refutado, manter-se-ia como tal.

Este método dialético socrático levou Aristóteles a afirmar que a dialética é a lógica do provável, daquilo que parece aceitável a todos ou a maioria, mesmo quando não se pode demonstrar, já que exige apenas que não seja possível eliminar o candidato à verdade. Na mesma linha de análise que Aristóteles, Immanuel Kant, considerado o maior filósofo da era moderna, avaliou a dialética como nada mais que uma ilusão, tratando-se do que chamou de “lógica das aparências”, por basear-se em aspectos subjetivos, recusando a explicação causal da realidade.

A forma mais comum atualmente utilizada é a que foi apresentada por Johann Gottlieb Fichte, também adotada por Georg Wilhelm Friedrich Hegel, que consiste em abordar a questão a ser discutida na forma de tese e antítese, com objetivo de chegar-se a transcendência de ambas, na síntese, que seria uma terceira tese. Segundo estes autores, o objetivo da dialética não seria interpretar a realidade, mas refleti-la.

Exemplo De Tese Antitese E Sintese - Vários Exemplos

A dialética Fichteana/Hegeliana é baseada em quatro conceitos:

  1. Tudo existe em um tempo médio, ou seja, tudo é finito e transitório.
  2. Tudo é composto de contradições – a palavra “contradição” é por vezes reinterpretada pelos alguns estudiosos como “forças opositoras”.
  3. Mudanças graduais levam a crises, Fichte sugere uma estratégia que consiste em mudar o ponto defendido quando uma força sobrepõe sua força opositora – a ideia é que mudanças quantitativas levam a mudanças qualitativas.
  4. A mudança é espiral (sobreposição) e não circular – não se trata apenas de um caso de negação da negação, mas a sublimação.

Para além de Sócrates e Fichte, o conceito de dialética este presente na filosofia de Heráclito, conhecido por propôr que tudo está em constante mudança, de tal forma que a história do método dialético se confunde com a história da filosofia.

ENTENDA MELHOR OS CONCEITOS DE DIALÉTICA PARA PLATÃO, ARISTÓTELES E HEGEL:

QUAL A RELAÇÃO ENTÃO ENTRE A LIBERDADE E A DIALÉTICA?

A separação entre fundante e fundado, entre causa e efeito leva a regressus ad intinitum, irracionalidade essa que só pode ser evitada por uma arkhé (elemento) inicial que, estando fora, faz o começo a determina. Surge assim a predeterminação causal. Uma tal concepção leva ao indeterminismo causal que impossibilita a liberdade. Na tradição dialética, fundante e fundado, causa e efeito são, em última instância, um movimento circular: autofundamentação e autocausação. Isso permite pensar a liberdade como autodeterminação. Se o sistema dialético é pensado sem contingência, a autodeterminação é “livre” apenas por não sofrer coerção externa; e!a, dentro em si, é necessária. Se o sistema é pensado com contingência, a liberdade pode ser pensada como livre escolha. O dilema entre causalidade e livre arbítrio é assim resolvido, sem que se apele como fez Kant para uma teoria de dois mundos.

ASSISTA AO MITO DE ÍCARO E DÉDALO PARA PENSAR SOBRE A LIBERDADE DIALÉTICA:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.